Há dias em que parece que o mundo se pôs de acordo para nos fechar todas as janelas. Lá fora chove, o céu pesa e até as horas avançam sem vontade. São aqueles momentos em que fantasiamos estar em qualquer outro lugar, de preferência debaixo de um sol abrasador e a muitos quilómetros de distância da rotina.
No entanto, por vezes basta algo tão simples como uma chamada inesperada para alterar o rumo de uma tarde. Uma voz conhecida do outro lado do telefone, uma conversa que começa por falar do tempo e acaba por abrir portas que nenhum dos dois tinha previsto atravessar.
Porque há encontros que começam muito antes de duas pessoas se verem frente a frente. E conversas aparentemente banais que, sem o sabermos, estão a preparar o terreno para algo mais profundo.
—Que tempo horrĂvel! —exclamei, desgostoso—. Dava um rim para estar agora deitado numa praia do Mediterrâneo. Tostado como sementes de girassol, com uma granita de limĂŁo para refrescar a garganta e um chapĂ©u de palha a proteger a cabeça dos raios solares. Em vez disso, o que tenho? Dias cinzentos, chuva a cântaros, vendavais, frio e uma vontade louca de fugir para um lugar onde a vida me sorria.
Desejava que alguém me telefonasse com vontade de conversar durante um bom bocado; não me servia falar dois minutos e desligar à pressa por falta de tempo ou de bateria. Era um clássico daqueles anos, em que não existiam tarifas ilimitadas e as chamadas feitas de um telemóvel custavam uma fortuna.
Por esse motivo, a maioria recorria a todo o tipo de artimanhas para que fosse o outro a suportar a despesa. O tĂpico: para alĂ©m do «fiquei sem bateria», havia o «liga-me mais tarde», a SMS com uma mensagem intrigante para obrigar o outro a devolver a chamada ou o descarado «a chamada caiu, devias estar com pouca rede».
Enfim, um leque de truques que toda a gente conhecia, mas que, ainda assim, eram usados sem qualquer pudor, sem importar quem estivesse do outro lado. Digamos que era uma versão inocente de «matar ou morrer, tu ou eu».
Felizmente, ainda existiam os telefones fixos e as tarifas eram mais acessĂveis. Por isso, quando havia vontade de conversar durante um bom bocado, ligava-se para o telefone de casa na esperança de que alguĂ©m atendesse.
Continuava mergulhado nos meus pensamentos quando o telefone tocou; foi como se alguém tivesse captado os meus pensamentos por telepatia.
Ao levantar o auscultador, disse:
—Fulmen ao aparelho, quem fala?
—Olá, sou a Nova. Como estás, Kiran? Liguei só para te cumprimentar.
—Nova! Que alegria teres ligado. Estou bem de saúde, embora, para dizer a verdade, estivesse a ficar sufocado na cozinha enquanto olhava pela janela para este céu e para esta maldita chuva que não para.
—A quem o dizes? —respondeu ela, com um tom de voz mais apagado do que o habitual.
—Então estás em Zurique? —quis saber imediatamente.
—Estou. Vim visitar os meus pais e, sinceramente, esperava encontrar um tempo melhor. Não digo que procurasse calor de verão, mas pelo menos que não estivesse a chover a cântaros. Em Itália também levamos algumas semanas em que não para de chover. E, além disso, com o tempo tão instável, temos menos hóspedes na pensão, mas o dobro do trabalho —garantiu.
—Como Ă© possĂvel? Dizes que com menos clientes trabalhas mais. NĂŁo Ă© uma contradição? —respondi, pensando que se tinha enganado e queria dizer precisamente o contrário.
—NĂŁo, nĂŁo, ouviste bem. Pensa: com este tempo, os hĂłspedes vĂŁo fazer caminhadas na montanha e depois trazem a lama agarrada Ă s botas. Se eu nĂŁo estiver constantemente a vigiar quem entra e sai, como uma polĂcia de trânsito, deixam tudo cheio de lama —sentenciou.
—E isso nem sequer é o pior. O grave é o que fazem nos quartos, porque sabem que aà não os posso controlar. Tiram a roupa cheia de lama e atiram-na para onde lhes apetece, deixando tudo imundo. E nem te falo das toalhas da casa de banho: há algumas que, quando entregam o quarto, temos de deitar diretamente para o lixo.
—E já para não falar quando saem para almoçar ou jantar fora: deixam a janela aberta, chove torrencialmente, o chão fica alagado e depois aparecem com cara de surpresa a dizer que não percebem como aquilo aconteceu.
—Juro-te, é um tormento ter de lidar com tanta gente cujos modos deixam muito a desejar. Tenho a certeza de que em casa deles não se comportam da mesma maneira; ali têm cuidado por onde pisam e tratam das coisas.
—Sei perfeitamente que pagam pelo serviço e que alguns trazem costumes muito diferentes dos seus paĂses de origem, mas, se os avisas educadamente e fazem ouvidos moucos, que mais podes fazer? NĂŁo Ă© que nĂŁo tenham percebido; simplesmente nĂŁo querem saber.
—Nem imaginas como é complicado tirar certas manchas das carpetes, dos sofás e até das paredes.
—Depois, claro, reclamam por cada grão de pó, por cada pontinho na toalha da mesa da sala de jantar ou por qualquer fiapo na carpete. São os mesmos que todas as manhãs deixam o quarto transformado numa pocilga.
Tudo o que me contava encaixava perfeitamente nesse padrĂŁo de comportamento despreocupado, tĂŁo comum no turismo massificado. O problema Ă© que, quando nĂŁo o vivemos na prĂłpria pele, nem sequer conseguimos imaginar.
AtĂ© Ă quele momento, quando pensava neles a gerir a pensĂŁo, imaginava-os sobretudo na parte administrativa: as tĂpicas funções de gestĂŁo, fazer pagamentos, falar com fornecedores, organizar reservas e esse tipo de tarefas menos pesadas.
Mas não há dúvida de que as tarefas mais desagradáveis também têm de ser feitas por alguém.
Escusado será dizer que a minha querida amiga Nova estava a deitar fumo. Alguma coisa estava realmente errada.
Aquilo que me contava sobre o seu dia a dia já era motivo suficiente para perder a paciência, mas receava que não fosse tudo. Na sua voz havia uma nota de amargura que não me passou despercebida.
Felizmente para ela —e também para mim—, as muitas horas que tinha passado na Escuta Solidária ajudavam-me a manter a conversa fluida, sem que parecesse que estávamos num confessionário.
Ela desabafava à vontade sobre as suas frustrações e dizia cobras e lagartos dos hóspedes, com toda a razão do mundo, enquanto eu me limitava a ouvi-la, intervindo apenas o necessário.
Era um hábito saudável que se tornara quase automático na maioria das minhas conversas e, naquela ocasião, aplicava-o precisamente porque compreendia que a minha amiga precisava realmente disso.
Nova nĂŁo sabia nada da minha passagem pela Escuta Solidária; Ă© possĂvel que, se soubesse, nĂŁo tivesse falado com tanta liberdade.
Ninguém se sente totalmente à vontade sabendo que um amigo está a fazer de psicólogo improvisado, aplicando aquilo que aprendeu numa formação destinada a atender por telefone pessoas em situação de crise.
Como diz o ditado, nenhum médico deve tratar familiares ou vizinhos.
Perguntou-me se estaria ocupado no dia seguinte e eu disse-lhe que nĂŁo.
—Nesse caso, seria bom encontrarmo-nos. Como sabes, estou aqui em casa dos meus pais e preciso de espairecer um pouco. Que tal combinarmos alguma coisa?
—Sem problema —respondi—. Passa cá amanhã a partir das quatro da tarde, se ainda te lembrares de onde moro —acrescentei em tom de brincadeira.
—Não sejas parvo —atirou ela—. Não te esqueças de que sou daqui desde sempre. Diz-me, há algum problema para estacionar em tua casa?
—Se fores capaz de passar com o carro pelo portão do jardim sem deixar a pintura agarrada às grades, há espaço de sobra —respondi, para que percebesse que, se começasse a lançar ventos fortes através do telefone, podia esperar tempestades de volta.
Ela percebeu imediatamente e baixou o tom.
Talvez tenhamos esquecido o quão extraordinário pode ser escutar verdadeiramente alguém.
Não para responder de imediato, oferecer soluções ou demonstrar que sabemos o que fazer, mas simplesmente para permanecer ali enquanto a outra pessoa põe em palavras aquilo que há demasiado tempo leva acumulado dentro de si.
Às vezes, uma conversa não resolve nada e, no entanto, muda muitas coisas. Alivia o peso, encurta as distâncias e recorda-nos que, por detrás das queixas, do cansaço ou de uma simples chamada para dizer olá, pode esconder-se uma necessidade muito mais simples: sentir que há alguém do outro lado.
E quem sabe? Talvez alguns dos encontros que acabam por se tornar importantes na nossa vida comecem precisamente assim: num dia cinzento, quando nĂŁo esperávamos que acontecesse absolutamente nada…
Sobre o autor
Alfonso Corchero é autor de Entre o Asfalto e o Incenso, uma obra nascida da experiência, da observação e da busca interior. A sua escrita explora as contradições do ser humano, os momentos em que o quotidiano se quebra e as experiências que nos obrigam a olhar para dentro. Longe de oferecer respostas prontas, os seus relatos convidam o leitor a reconhecer-se no caminho, nas dúvidas e nas transformações de quem aprende a atravessar os seus próprios umbrais.